MITOLOGIA COMPARADA, PUREZA, PECADO E PUNIÇÃO:
O SISTEMA PENAL COMO RITO SIMBÓLICO
Palavras-chave:
rito de purificação, mitologia comparada, processo penal, criminologia crítica , direito penalResumo
O presente artigo realiza uma análise simbólica e semiótica do direito penal e do processo penal, fundamentada na mitologia comparada, na criminologia crítica e no garantismo penal. Parte-se da hipótese de que o sistema de justiça criminal, mesmo estruturado sob os princípios da legalidade e do devido processo, opera como um ritual de purificação social, perpetuando arquétipos primitivos de pureza, pecado, desvio e sacrifício. Utilizando abordagem qualitativa e teórica, o estudo examina a presença de mitos fundacionais no imaginário penal, a centralidade simbólica da figura do guardião da ordem, da mulher pecadora e do bode expiatório, o julgamento como ritual de exclusão e a construção do inimigo moral como estratégia de contenção do caos. Argumenta-se que a pena, longe de ser mero instrumento técnico de controle, assume função sacrificial, reafirmando fronteiras morais, políticas e sociais e legitimando práticas seletivas e autoritárias. Conclui-se que o direito penal contemporâneo, ao recodificar mitos punitivos sob o disfarce da racionalidade formal, reforça dispositivos de exclusão incompatíveis com uma justiça democrática. Defende-se, assim, a necessidade de uma crítica radical aos rituais de punição e a construção de alternativas verdadeiramente garantistas no campo penal.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix, 2007.
DUCLERC, Elmir. Seletividade, Raça e Redução de Danos: O Acordo Penal entre Themis e Xangô. Jornal GGN. Disponível em: https://jornalggn.com.br/justica/o-acordo-penal-entre-themis-e-xango-por-elmir-duclerc/ Publicado em 22 dez. 2022. Acesso em 02 dez. 2024.
DUCLERC, Elmir; et al. Introdução aos fundamentos do direito processual penal. São Paulo: Tirant Lo Blanch, 2020.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
FERRAJOLI, Luigi. Direito e razão: teoria do garantismo penal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002.
FERRAJOLI, Luigi. Poderes salvajes: La crisis de la democracia constitucional. Madrid: Editorial Trotta, 2011.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. São Paulo: Vozes, 2014.
GARCIA-PABLOS DE MOLINA, Antonio. Criminologia. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001.
GARLAND, David. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. São Paulo: Revan, 2008.
GIRARD, René. O bode expiatório. São Paulo: Paz e Terra, 2008.
GLOECKNER, Ricardo Jacobsen; KHALED JR., Salah H.; DIVAN, Gabriel. Verdade, processo penal e epistemologia: da pretensa fundamentação filosófica aos efeitos jurídicos e políticos da adoção de premissas racionalistas. Revista Brasileira de Ciências Criminais. vol. 199. ano 31. p. 73-107. 2023.
KHALED JR, Salah; MORRISON, Wayne. Curso de criminologia crítica e cultural decolonial: vol.1 – fundamentos, classicismo e positivismo. Belo Horizonte: Letramento, 2024.
KRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. O martelo das feiticeiras: malleus maleficarum. 33 ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2024.
RICOEUR, Paul. A simbólica do mal. Petrópolis: Vozes, 2007.
SMART, Carol. Law, Crime and Sexuality: Essays in Feminism. London: SAGE Publications, 1995.
TURNER, Victor. O processo ritual: estrutura e antiestrutura. Petrópolis: Vozes, 2005.
VAN GENNEP, Arnold. Os ritos de passagem. Petrópolis: Vozes, 2011.
YOUNG, Jock. A sociedade excludente: exclusão social, criminalidade e diferença na modernidade tardia. Rio de Janeiro: Revan, 2007.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Revista do CEPEJ

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Qualquer pessoa pode copiar, distribuir, adaptar e utilizar o conteúdo, para qualquer finalidade, desde que atribua o devido crédito aos autores e à publicação original na Revista do CEPEJ e indique eventuais alterações.
A licença abrange o conteúdo de autoria dos próprios autores. Imagens, tabelas ou outros materiais de terceiros reproduzidos nos trabalhos permanecem sujeitos às condições de seus titulares, e cabe aos autores obter as autorizações necessárias antes da submissão.